sexta-feira, 21 de julho de 2017

Os Engenhos de Açúcar

Cuthbert Pudsey foi um mercenário inglês a serviço da WIC no Brasil desde a invasão em 1630, permanecendo até 1640 quando segue para as Antilhas, volta a Pernambuco e então retorna à Europa. Escreveu um diário onde narra a viagem marítima até Pernambuco, e descreve o país, seus habitantes, animais e plantas, além dos combates pela posse da terra:

Agora inventaram os engenhos para moer suas canas de açúcar. Seus escravos devem plantar e cortar sua cana, que só necessita ser plantada uma vez a cada sete anos.

Fundidores para fundir suas caldeiras. Pedreiros para fazer os fornos. Carpinteiros para fazer baús. Outros apressam-se a erguer igrejas. Em cada engenhou uma capela, uma escola, um padre, um barbeiro, um ferreiro, um sapateiro, um carpinteiro um marceneiro, um oleiro, um alfaiate, e todos os outros artífices necessários. Pois cada engenho é como um estado em si mesmo e o senhor do engenho justiceiro e juiz em si mesmo.

Quando o engenho mói, ha uma roda que gira por meio de água ou de bois, que movem dois grandes pilares que são construídos redondos, reforçados com ferro, dispostos de modo a estarem próximos um do outro sem se tocarem. E entre esses pilares costuma-se alimentá-los com as canas por dois ou três escravos que passam e repassam a cana. O suco é destilado em certas calhas que o levam até as caldeiras, que trabalham em sequencia, escumando e refinando essa sopa até que ela chega ao ponto de açúcar.

Costumam então, depois que ele está frio e espesso, colocá-lo em formas, e sobre estas, depois de ter ficado certo tempo, tem uma espécie de ciência de fazer uma mistura de cinzas de madeira e óleos com a qual cobrem suas formas para tomar seu açúcar branco e para fazer com que a escória purgue dele. Então, após ter ele estado por cerca de 4 meses no armazém para purgar, sacam-no das formas & quebram-no, secando-o ao sol, o que o torna tão branco como a neve. Feito isto, pesam-no & põem-no em caixas adaptadas para a venda.

Cuthbert Pudsey, Diário de uma permanência no Brasil

sábado, 24 de dezembro de 2016

A Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios

Descoberto o arquipélago de Fernando (ou Fernão) de Noronha entre 1501 e 1503, foi registrado em documentos em 10 de agosto de 1503, por Américo Vespúcio. O navio capitânia da expedição, de Gonçalo Coelho, afundou nos arrecifes do local.

A ilha serviu de entreposto para o comércio de pau-brasil com a Europa até 1512, quando a licença concedida pela Coroa portuguesa a Fernão de Noronha venceu e esta assumiu o controle dos negócios daquela madeira de tinturaria. A família de Noronha, no entanto, continuou com a posse da capitania até 1560.

Em 1629 o comandante holandês Cornelis Corneliszoon Jol, De Houtebeen (o perna-de-pau) invadiu as ilhas. Os neerlandeses tentaram povoar a ilha principal, que era desabitada, e introduzir o cultivo de alimentos, ficando até 1654, quando foram expulsos do Brasil. Na época da invasão, foi construído um fortim no alto de um penhasco de 45 m de altura, na parte norte da ilha, dominando o local mais apropriado para atracação das embarcações.

O primitivo forte português foi erguido, após a saída dos invasores, sobre o antigo fortim holandês, com aproveitamento da topografia do local. Em 1736 a ilha foi novamente invadida, agora pelos franceses e retomada pelos portugueses em 1737. Nesse mesmo ano, com um projeto do engenheiro militar Diogo Silveira Veloso, foi iniciada a construção do Forte dos Remédios, um polígono irregular em pedra e cal.

O forte sofreu melhoramentos e ampliações, até que em 1877 foi transformado em prisão civil, apesar de continuar artilhado.

A fortaleza foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional em 11 de novembro de 1937. Ainda assim, serviu como local de detenção para presos políticos durante o Estado Novo e como guarnição militar brasileira e norte-americana durante a 2ª Guerra Mundial.

Em 1988, o arquipélago de Fernando de Noronha foi declarado Parque Nacional e em 2001, reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural Mundial por acolher áreas de alimentação e reprodução de aves, peixes e mamíferos marinhos. Recentemente a Fortaleza de Nossa Senhora dos Remédios sofreu obras de restauração através do projeto PAC Cidades Históricas. 

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Recife e o início das ciências no hemisfério sul

Com a chegada de Maurício de Nassau ao Recife em 1637 começou o registro sistemático da natureza das capitanias do norte do Brasil. Na corte do Conde de Nassau havia a presença de artistas e cientistas que tinham a missão de levar para a Holanda os detalhes da geografia, fauna, flora e habitantes das terras conquistadas pelos mercenários da Companhia das Índias Ocidentais - WIC.

Em 1638 chega ao Brasil um jovem alemão da cidade de Liebstadt que iria introduzir os conceitos da moderna ciência na Nova Holanda, notadamente na astronomia: George Marcgrave. Havia estudado medicina, botânica, cartografia e astronomia na Universidade de Leiden, Holanda e vinha recomendado por Joannes de Laet, geógrafo e diretor da WIC.

Com o apoio de Nassau, Marcgrave montou um observatório astronômico na primeira casa do Conde no Recife, fazendo o registro documentado de diversos eventos celestes, além de outros observados em alguns pontos nas capitanias conquistadas pelos neerlandeses. Dentre seus feitos mais importantes destaca-se o registro de um eclipse lunar no Recife na noite de 20 de dezembro de 1638, cujos dados serviram para Marcgrave calcular a longitude do Recife com extrema precisão levando-se em conta a precariedade dos instrumentos da época. Com isso foi possível determinar a distância entre o Recife e as cidades da Europa, informação importantíssima para a navegação no Atlântico.

O Dr. Oscar Matsuura, astrofísico, escreveu:

O naturalista e cosmógrafo alemão Marcgrave, ficou muito conhecido por seus trabalhos em história natural e cartografia publicados após sua morte.

Para o Brasil, embora as atividades astronômicas de Marcgrave tenham ocorrido sob dominação estrangeira, o seu resgate histórico deve nos interessar por se tratar de um episódio ocorrido em nosso território, e que não deixa de se constituir no fato fundador da ciência em nosso país. Com efeito, o complexo formado pelo observatório astronômico de Marcgrave no Recife, pelos jardins botânico e zoológico do museu de historia natural, atuou como um campus avançado da Universidade de Leiden para observação da natureza do Novo Mundo. O observatório foi o primeiro do Brasil, das Américas e do hemisfério sul com edificação própria, com instrumentos de grande porte e de ultima geração na época.” (História da Astronomia no Brasil,  vol I – CEPE, 2014).

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Gestores políticos do Brasil holandês

10. fev.1630
5.mai.1630
Governador
Hendrick Corneliszoon Lonck
14.mar.1630
dez.1632
Conselho Político
Johan de Bruyne
Philips Serooskerken
Horatio Calendrini
Johannes van Walbeeck
Servaes Carpentier
5.mai.1630
9.mar.1633
Governador
Diederik van Waerdernburch
jan.1633
1.set.1634
Diretoria delegada
Mathijs van Keulen
2.set.1634
1638
Conselho Político
Servaes Carpentier
Willem Scholte
Jacob Stachouwer
Balthasar Wijntges
Ippo Eyssens
28.jan.1637
6.mai.1644
Governador e Capitão general de terra e mar
Johann Moritz von Nassau-Siegen
28. jan.1637
6.mai.1644
Alto e Secreto Conselho
Mathias van Ceulen
Johan Gysselingh
Adriaen van der Dussen
Hendrick Hamel
Dirck Codde van den Burgh
Adrian van Bullestraten
6.mai.1644
15.ago.1646
Alto e Secreto Conselho
Hendrick Hamel
Adriaen van Bullestraten
Dirck Codde van den Burgh
Pedro S. Bas
16.ago.1646
27.jan.1654
Alto Governo
Michel van Goch
Simon van Beaumont
Walter van Schonenburgh
Hendrik Haecxs

terça-feira, 15 de setembro de 2015

A Guerra da Fome

Uma das principais características da guerra pela posse do Brasil holandês foi a extrema falta de recursos materiais para o desenvolvimento das ações de ataque e contenção dos pontos de interesse de Portugal e dos Países Baixos. Segundo Gonsalves de Mello, a palavra “fome” era das mais comuns nos relatórios dos conselheiros e comandantes da Companhia das Índias Ocidentais - WIC no Recife.

Ao chegar ao litoral pernambucano em 1630, os combatentes da WIC encontraram um sistema de defesa inadequado para fazer frente ao grande exército enviado pelos neerlandeses, em que pese as vastidões das terras portuguesas no nordeste brasileiro. Ocupadas Olinda e o Recife, os invasores começaram a sentir a falta de mantimentos e até mesmo de água potável, já que a maioria das fontes fornecia água salobra.

Notando a dificuldade dos neerlandeses em receber suprimentos da Europa, os luso-brasileiros intensificam a guerrilha para impedir o acesso dos invasores aos locais de armazenamento de víveres, fruteiras e lenha. Isso sem contar a dificuldade inicial dos europeus em se adaptar aos alimentos da terra.

Aumentando as regiões ocupadas a partir de 1632 e a organização da conquista com a chegada de Maurício de Nassau em 1637, os holandeses passam a ter melhores condições de viver no Brasil holandês. Ainda assim, em suas cartas aos Estados Gerais e aos Heeren XIX, Nassau reclama da penúria por que passava o país. Os dirigentes da WIC no Recife tentaram transformar vários locais como Itamaracá, Alagoas e Fernando de Noronha em centros de cultivo de lavouras para abastecer os núcleos urbanos, mas sem sucesso.

Mesmo em Salvador, sede do governo colonial português, houve falta de alimentos quando, em 1639 o Conde da Torre aportou com sua esquadra e 3.000 homens que deveriam libertar Pernambuco dos invasores neerlandeses. Houve assalto dos soldados famintos às casas para saquear comida, o que descambou para estupros e assassinatos.

Os combatentes portugueses e brasileiros internados nas matas contavam apenas com os suprimentos vindos da Bahia e o que conseguiam em alguns engenhos de açúcar. No entanto, a política de terra arrasada empregada por ambas as partes, destruindo as construções, plantações e criação de gado dos aliados tanto de holandeses quanto de portugueses, contribuía para aumentar a falta de alimentos. O episódio da marcha das tropas de Luis Barbalho em 1640, que após duro combate naval desembarcou seus comandados no Cabo de São Roque, Rio Grande do Norte, seguindo pelo interior até o Rio São Francisco e daí até Salvador, ilustra bem esse tipo de ação.

Com a volta do Conde de Nassau para a Europa, em 1644, o desabastecimento volta a infernizar os que dependiam da Companhia das Índias Ocidentais para viver no Brasil holandês. Em 1645, tem início a Insurreição Pernambucana com o avanço das tropas luso-brasileiras em direção ao Recife.

Os estoques foram minguando a tal ponto, que os habitantes do Recife sitiado tiveram que recorrer aos animais, inclusive cachorros e ratos para ter o que comer. Em 1646, a situação chegou a um extremo em que os comandantes de dois navios que trouxeram suprimentos da Holanda para o Recife foram agraciados com medalhas de ouro onde estava gravado: O Falcão Dourado e o Elizabeth salvaram o Recife.

Dependendo da situação de momento, a deserção ocorria de ambos os lados com frequência, muitas vezes por causa da fome. Os portugueses ofereciam aos mercenários da WIC o pagamento dos soldos atrasados e rações duplas para os que trocassem de lado na guerra. As tripulações dos navios holandeses também se amotinavam por falta de provisões e retornavam com seus barcos para os Países Baixos, sem a autorização dos comandantes.

Após as duas batalhas dos Guararapes, 1648 e 1649, os neerlandeses tiveram suas tropas reduzidas a poucas companhias e o assédio ao Recife ficou mais apertado, mas por falta de apoio do Rei D. João IV, a guerra só teve seu desfecho cinco anos depois, com a rendição dos homens da WIC em 1654. Segundo relatório dos conselheiros da WIC no Recife: “A maioria dos soldados estava em farrapos, arrastando-se pelas ruas da cidade como mendigos e comendo as sobras encontradas nas sarjetas". A situação dos homens da Insurreição também não era muito melhor da que a dos holandeses, a diferença era que estes estavam lutando por sua terra e suas famílias, enquanto que os mercenários da Cia. das Índias Ocidentais estavam abatidos física e moralmente.

domingo, 28 de junho de 2015

Como Ancorar no Recife

O porto de Pernambuco está situado a uma légua ao norte da cidade com uma estreita passagem para entrar, pelo que, passado o castelo que está no recife, deve-se virar logo para o sul, encostado às pedras. Estas pedras ou recifes tem o comprimento de uma légua e estendem-se norte-sul, ao longo da costa, nivelados, sendo a largura de oito a dez passos de um extremo a outro, atrás dos quais ficam os navios protegidos como por um dique. Em certos lugares estes recifes erguem-se seis pés acima da água, noutros oito pés, para o norte onde ancoram os navios.

No preamar as águas rebentam por cima em dois ou três pontos e, para o sul, ficam as pedras um ou dois pés debaixo dágua. Na ponta norte dos mesmos, chamada Ponta de Marim, está o pequeno Castelo, mais ou menos à distancia de um arremesso de funda da terra firme, havendo que navegar entre aqueles e esta para chegar ao ancoradouro. O canal é muito estreito quando se vem de fora e a profundidade, mesmo com a maré alta, não passa de 22 pés. Para entrar, corra junto ao Castelo na referida ponta, mas não a menos de um tiro de pedra por causa de três ou quatro escolhos a bombordo. E, a estibordo, há um banco de pedra sobre qual o mar arrebenta até a meia maré, rolando por cima na preamar.

Este banco estende-se ao longo da costa até a ponta de Pernambuco duas milhas para o norte. O mar corre por cima mas poupa mas poupa o castelinho do recife sem lhe causar dano. Uma vez passado este, pique-se a barlavento entre a terra firme e o recife mais perto deste do que de terra por causa do outro banco que está ligado à costa, onde às vezes não há arrebentação. Este banco fica bem em frente ao castelo de terra firme. Passe o mais rente possível junto ao recife, que, sendo a pique, quase permite saltar, mas à distancia de duzentos passos do fortim para o sul, interrompe-se o recife, pelo que convém afastar-se um pouco, navegando-se em seguida ao longo até chegar ao meio do povoado que está a estibordo, em terra firme.

Segure o navio com quatro cordas, à meia amarra, no recife; duas à popa e duas à proa; e lance ancoras do lado da povoação, também à popa e à proa, para permanecer ancorado em posição norte sul por causa da vazante e da cheia.

Esta orientação está no livro Toortse der Zee-Vaert (A Tocha da Navegação) do navegador holandês Dierick Ruyters, publicado em 1623 na cidade de Vlissighen, Zeelandia. Ruyters esteve presente no Brasil em várias ocasiões, inclusive nas invasões de Salvador e Olinda como piloto das frotas da WIC. Seu livro demonstra o vasto conhecimento que os holandeses tinham sobre o Brasil mesmo antes de atacarem-no.

Algumas observações são importantes: a) o porto de Pernambuco, Recife, está ao sul da cidade, Olinda, e não ao norte; b) o pequeno Castelo é o Forte do Mar, sobre os arrecifes; c) o castelo de terra firme é o Forte de São Jorge no istmo entre o Recife e Olinda.

sábado, 18 de abril de 2015

A Várzea do Capibaribe

A região a oeste do Recife, distando cerca de 10 km do porto e banhada pelo Rio Capibaribe, ficaria conhecida como Várzea do Capibaribe, sendo a primeira a ser ocupada para o cultivo da cana de açúcar na capitania de Pernambuco. Além da cana de açúcar, as matas ribeirinhas eram ricas em pau-brasil, tornando ainda mais valiosa aquela região.

Com terras férteis, clima propício e muita água, surgiram vários engenhos na Várzea. O primeiro engenho implantado na área foi o Santo Antônio, de Diogo Gonçalves. Atraídos pelo açúcar produzido em Pernambuco, os holandeses invadiram a capitania tomando Olinda e o Recife em 1630. Nessa época, a Várzea contava com 16 engenhos de açúcar que transportavam seu precioso produto através do Rio Capibaribe para o porto do Recife.

Segundo Duarte de Albuquerque Coelho, quarto donatário de Pernambuco, os moinhos (engenhos) eram: Santo Antônio, do Meio, Curado, Torre, Madalena, Apipucos, São Pantaleão do Monteiro, Casa Forte, Jequiá, Ambrósio Machado, Francisco de Brito, Luís Braga Bezerra, D. Catarina, do Brum, Camaragibe e Caxangá. Por concentrarem grande número de pessoas, entre nobres, escravos, comerciantes, artesãos e agricultores, esses engenhos de açúcar tornaram-se núcleos de povoações que evoluíram para bairros e vilas.

A mais importante dessas fábricas de açúcar foi o engenho São João, cujo proprietário, João Fernandes Vieira, foi um dos líderes da Insurreição Pernambucana, contribuindo com meios materiais e incentivando os outros senhores de engenho a lutarem contra a dominação holandesa no Brasil.

Nas terras da Várzea, funcionaram durante o período holandês, algumas instituições de Olinda como o Senado, o Hospital Militar e a Santa Casa de Misericórdia. Dessas terras partiram as tropas que enfrentaram e bateram os mercenários da Companhia das Índias Ocidentais e retomaram o Nordeste brasileiro para a Coroa portuguesa.

domingo, 22 de março de 2015

Olinda e Recife Vistas Pela WIC

Ao conquistar Olinda e o Recife em 1630 a Companhia das Índias Ocidentais (WIC) inclui o Brasil entre as colonias holandesas espalhadas pela América, África e Oceania. Johannes de Laet, geografo e diretor da WIC, escreve um relatório que foi publicado em 1644 com o título de "História ou Anais dos Feitos da Companhia Privilégiada das Índias Ocidentais desde o começo até o fim do ano de 1644". Ao narrar a invasão de Pernambuco de Laet descreve Olinda e o Recife, citando o Seminário de Olinda (jesuítas), o istmo, o porto do Recife e os fortes do Mar e de São Jorge:

Antes de escrevermos o que se passou posteriormente, será conveniente que digamos um pouco da situação e grandeza da capitania de Pernambuco. É realmente umas maiores que se encontram em todo o Brasil, pois se estende para o sul até o rio S. Francisco, pelo qual é separada da Capitania da Bahia de Todos os Santos, e para o norte até a Capitania de Itamaracá, contando entre esses limites cerca de 90 léguas ao longo da costa.

Os portugueses possuíam nesta capitania 11 lugares povoados, dos quais o primeiro e mais importantes era Olinda, situada a cerca de 8 graus de latitude ao sul do equador. Essa cidade de achava bem colocada na costa do Atlântico e apresentava um belo e risonho aspecto do lado do mar. No ponto mais elevado da cidade ficava o convento dos jesuítas, belo e bem edificado, dispondo de rendas importantes, muitos prédios, terras e animais por todo o interior do país...

Ao sul da cidade, entre o Rio Beberibe e o mar, estende-se uma estreita península em cuja ponta está uma povoação chamada Recife, onde fazem o embarque e o desembarque de todas as mercadorias e onde habitava muita gente. Perto do meio dessa nesga de terra, que tem quase uma légua de extensão, do lado do mar, está o Poço, no qual grandes navios podem ancorar, pois tem ordinariamente 18 a 19 pés d’água. Do outro lado do Poço, na ponta do recife de pedra (que se estende ao longo da costa do Brasil, com varias interrupções), estava um fortim ou torre redonda, construído havia muitos anos, de pedra duríssima, quase dentro do mar, e fazendo face a esse, já na citada nesga de terra ou península do Recife, havia outro a que os portugueses chamavam S. Jorge. Em tais condições se achava Olinda quando os nossos a tomaram, conforme já ficou descrito.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

A Igreja Matriz do Corpo Santo

A mais antiga igreja do Recife e núcleo da cidade foi, lamentavelmente, demolida em nome do progresso.

A Igreja do Corpo Santo foi erguida no local onde havia a ermida de São Frei Pedro Gonçalves ou São Telmo, santo protetor dos pescadores e homens do mar. Ao seu redor, que hoje seria próximo ao Marco Zero, foram sendo construídas casas e armazéns das pessoas que viviam e trabalhavam do mar, para onde estava voltada a fachada da igreja.

Com a invasão dos holandeses em 1630, a igreja foi transformada em templo calvinista, inclusive servindo de cemitério para importantes figuras do Brasil holandês, como o irmão do Conde Maurício de Nassau, João Ernesto de Nassau, o conselheiro político e depois senhor-de-engenho, Servaes Carpentier e do almirante Lichthart. Segundo o arquiteto José Luiz Mota Menezes, os holandeses acrescentaram ao prédio uma torre sineira conforme o estilo arquitetônico neerlandês da época.

Expulsos os holandeses em 1654, a igreja foi reconciliada e começou a ocorrer a Procissão dos Passos, segundo promessa dos oficiais luso-brasileiros e cumprida até hoje, na quinta e sexta-feira, que antecedem em duas semanas a Semana Santa. Naquela época foi criada a Venerável Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos do Corpo Santo. A procissão saia da Igreja do Corpo Santo para a igreja do Convento de Nossa Senhora do Carmo em Olinda.

No século XVIII a igreja foi ampliada, tornando-se um imponente prédio.

Em 06 de março de 1913 ocorreram os últimos eventos religiosos da Matriz do Corpo Santo, tendo sido rezada missa, com a comunhão e posterior transferência do Santíssimo Sacramento para a Igreja da Madre de Deus.  

Em outubro de 1913 a igreja começou a ser demolida, sendo concluído o processo no ano seguinte, para a construção da Av. Marques de Olinda e a ampliação do porto do Recife.

Conforme fotografias da época, a igreja tinha cinco portas na fachada principal, tendo a porta central cerca de 6 m de altura. O prédio mediria 25x50 m, com três pavimentos somando 15 m de altura até o alto da torre sineira.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

João Fernandes Vieira II

Em agosto de 1644, André Vidal de Negreiros, vindo da Bahia, começa a fomentar a Insurreição no Recife e cercanias. Nessa época o Conde de Nassau já havia retornado à Europa e tudo apontava para a revolta. Também de larga importância nesse contexto é a restauração do trono lusitano através de D. João IV no final de 1640.

Na várzea do Capibaribe, em 23 de maio de 1645, é assinado, inclusive por Vieira, um compromisso de honra pelos patriotas que se comprometem a lutar e ajudar, inclusive financeiramente, para a expulsão dos holandeses do Brasil. No mês seguinte, apos receber diversas denuncias da iminente insurreição, o Alto Conselho manda prender Vieira, seu sogro Francisco Berenguer e outros lideres do movimento. Os insurretos reunem-se no engenho de Luis Bras Bezerra, também na várzea,  e juntam armas e homens para o combate.

Seguindo para o interior os luso-brasileiros chegam até o Monte das Tabocas, hoje Vitória de Santo Antão, aonde enfrentam e vencem as tropas holandesas. Foi a primeira grande batalha pela libertação do domínio neerlandês. Seguem-se vários combates com a ação de Vieira na frente de batalha como engenho Casa Forte e Forte de Nazaré (Cabo de Santo Agostinho), além de locais mais distantes como em Porto Calvo e Penedo.

Em 07 de outubro de 1645 os membros mais importantes do clero, da nobreza e das armas de Pernambuco elegem João Fernandes Vieira governador da capitania, com poderes civis e militares, ficando em pé de igualdade com os enviados pelo governador-geral em Salvador, André Vidal de Negreiros e Martim Soares Moreno. Um dia antes, em Salvador, o próprio governador Antônio Telles havia designado Vieira como mestre-de-campo do Terço de Pernambuco, com a missão de fazer a guerra de restauração.

Sem conseguir eliminar por completo os invasores, a guerra entra numa fase semelhante ao inicio da invasão com pouca movimentação das tropas de ambos os lados.  Não havia armas, munições nem suprimentos suficientes para os luso-brasileiros nem para os holandeses empreender uma ofensiva decisiva. O prestigio de Vieira fica abalado frente aos insurretos, ocorrendo até uma emboscada contra ele, que escapou ferido à bala.  Apesar das vitórias anteriores, o período 1647 – 1648 é muito duro para os revoltosos, principalmente pela pouca ajuda recebida do Reino, e o ataque dos piratas da Zeelandia à navegação entre Europa e Brasil onde apreenderam mais de 200 navios portugueses nesse tempo.

Em 1648 e 1648 as duas batalhas dos Guararapes acabam de vez com as chances da conquista holandesa no Brasil. Vieira atuou de forma pessoal e decisiva nos dois combates onde seu Terço, que era o de maior efetivo, preencheu o centro do dispositivo das tropas do mestre-de-campo-general Barreto de Menezes, garantindo a derrota dos mercenários da WIC.

Na ofensiva final contra os holandeses no Recife o Terço de Vieira outra vez ataca na vanguarda das forças que investem contra o Forte do Rego ou das Salinas, onde hoje existe a Igreja de Santo Amaro, origem do bairro de mesmo nome. Alguns dias depois, acertada a rendição dos holandeses, as tropas de Barreto de Menezes, com os homens de Fernandes Vieira novamente à frente, entram no Recife em 27 de janeiro de 1654.

Em reconhecimento aos feitos na guerra de libertação, o Rei concedeu a João Fernandes Vieira diversas honrarias como os governos da Paraíba, Angola e Maranhão, titulo de mestre-de-campo, comenda da Ordem de Cristo, superintendente das fortificações do Nordeste, além de terras em diversas localidades nordestinas. 

Citado em documentos como proprietário de mais de 16 engenhos, possuía terras em Pernambuco, Paraíba, Rio Grande, não só nas sedes das capitanias como no “sertão” como eram denominados os territórios afastados do litoral. A ele foi doado, inclusive, o sobrado que abrigava a sinagoga da Rua dos Judeus no Recife. Tinha também casas e uma quinta em Lisboa.

Apesar de muito criticado pelo período que esteve ligado aos holandeses e pelas suas inúmeras dívidas junto aos invasores e depois ao Reino, Vieira é justamente reconhecido como um dos heróis da Insurreição Pernambucana, tendo despendido grandiosos esforços e recursos materiais para sustentar a guerra contra o invasor neerlandês, durante largo período sem auxilio de Portugal.

Faleceu em 10 de janeiro de 1681 em Olinda, sendo sepultado na Igreja do Carmo. Em 1942 seus restos foram trasladados para a Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres, nos Montes Guararapes.

sábado, 29 de novembro de 2014

João Fernandes Vieira

A real origem deste importante personagem da Insurreição Pernambucana é controversa.  A maioria dos pesquisadores afirma que ele nasceu em 1613 em Funchal,  Ilha da Madeira. Enquanto uns dizem ser de família nobre, outros registram que tinha origem muito humilde, sendo o seu pai um degredado português e sua mãe uma negra. Segundo o pesquisador Rodrigo de Lima Felner seu verdadeiro nome seria Francisco de Ornelas Muniz Filho.

Descrito como mulato por vários autores, emigrou para Pernambuco onde chegou em 1624, tornado-se empregado de um marchante. Com a invasão holandesa em fevereiro de 1630, passa a combater os invasores, inclusive na defesa do Forte de São Jorge até sua tomada pelos neerlandeses em 02 de março.

Fernandes Vieira torna-se encarregado da distribuição de víveres às tropas luso-brasileiras, seguindo depois para o Arraial do Bom Jesus na mesma função até a rendição daquela fortificação em 1635. Vieira preferiu ficar no convivio dos holandeses a fugir com Matias de Albuquerque para o sul da capitania.

Estreitando relacionamento com o conselheiro político Jacob Stachouwer, Vieira consegue tornar-se seu criado quando o holandês adquire o Engenho do Meio, na várzea do Rio Capibaribe, a mais importante área produtora de açúcar de Pernambuco. Posteriormente ele passa a capataz e depois sócio do holandês na condução do engenho. Em 1638 Stachouwer, que agora possuía três engenhos, retorna à Holanda fazendo de Vieira seu procurador, estando este cada vez mais ligado aos invasores.

Agora senhor de engenho, Vieira consegue dos holandeses liberação para agenciar o comercio de açúcar com a Companhia das Índias Ocidentais, além da captura de escravos fugidos. Posteriormente ele obtem a concessão para a cobrança de diversos impostos para os holandeses. Também tinha concessão para a exploração do valioso pau-brasil.

Em 1640 João Fernandes Vieira representa os moradores portugueses da Várzea na assembléia convocada por Maurício de Nassau para tratar de assuntos administrativos da conquista, principalmente a fúria dos campanhistas que, havia alguns anos, circulavam pelo interior destruindo lavouras, engenhos e atacando as tropas invasoras.

Ao mesmo tempo que vai aumentando seus negócios e prestígio junto aos senhores da Nova Holanda, contrai dívidas de proporções gigantescas. É eleito escabino de Maurícia em 1641 ocupando o cargo por dois mandatos.

Observando a situação das dívidas dos senhores de engenho e outros negociantes, a WIC determina a Nassau e ao governo no Recife a cobrança das obrigações à Companhia. Os devedores alegam diversos fatores negativos à produção de açúcar na época (1641–1642) que não possibilitavam o saldamento dos empréstimos e impostos. Houve inundações devido às chuvas torrenciais, mortandade de escravos por epidemia de bexiga e praga de insetos nas lavouras. João Fernandes Vieira fica em posição delicada pois além de senhor de engenho, era cobrador de impostos. Sua dívida era a segunda maior entre os devedores da WIC no Brasil holandês.

Assim, começa a ser preparada a Insurreição Pernambucana a partir da várzea do Capibaribe. Apesar de intimamente ligado aos holandeses, Fernandes Vieira sempre procurou ajudar aos da terra, libertando aqueles presos e alguns já condenados à morte, através de elevadas somas entregues às autoridades do governo do Brasil holandês. 

Nesse meio tempo, em 1643, casou-se Vieira com D. Maria Cesar, filha de Francisco Berenguer de Andrade, também senhor de engenho, que havia sido preso em 1638 por suspeita de traição contra os neerlandeses.

sábado, 30 de agosto de 2014

W.I.C. III

Willem Usselincx era um mercador de Antuérpia que havia vivido na Espanha e Portugal, testemunhando o trafego de riquezas das colonias para a Europa. Sua ideia era que os Países Baixos fundassem uma empresa que além de promover o comercio com a America, desenvolvesse a colonização no Novo Mundo criando uma Nova Holanda. Além de negociar os metais preciosos já explorados pelos ibéricos, Usselincx projetava incrementar, através dos colonos neerlandeses, a produção de especiarias, madeiras e açúcar.  A base desse projeto era o estado de paz com a Espanha e o livre comércio com outras nações. Ao criar a WIC os Estados Gerais não aprovaram a ideia, pois queriam conquistar as terras americanas dominadas pela Espanha, enfraquecendo seu enorme império.

Tendo sido atraída ao Brasil pela produção de açúcar, a maior do mundo na época, a WIC não entendeu que simplesmente conquistar o país, ou parte dele, não garantiria para si os meios de produção do açúcar. Os engenhos e as plantações de cana eram propriedade dos portugueses que detinham a expertise na fabricação do valioso açúcar. Alguns holandeses chegaram a adquirir engenhos abandonados ou paralisados pela guerra de conquista dos invasores e posterior guerrilha dos luso-brasileiros contra os mercenários da WIC. No entanto, os neerlandeses nunca dominaram o processo produtivo, que sempre ficou nas mãos dos portugueses. A WIC precisava constantemente prover meios (escravos, financiamento, segurança) aos senhores de engenho para que estes mantivessem o fluxo de açúcar para as refinarias de Amsterdam. Quando os preços do açúcar na Europa despencaram e os senhores de engenho endividados se recusaram a saldar seus compromissos com os judeus e a companhia, a guerra de restauração explodiu em Pernambuco.

A Companhia das Índias Ocidentais nunca conseguiu equilibrar suas finanças no Brasil holandês, pois sua política era de conquistar e explorar a conquista, sem pensar em ocupar o território com colonos para desenvolver a agricultura, a indústria ou o comércio e facilitar a manutenção do país sob seu domínio. Esse era o objetivo de Usselincx. Apesar da conquista de vasto território no Brasil, seus maiores feitos em termos de lucro foram o apresamento de navios que transportavam para a Europa os produtos explorados pela Espanha e Portugal: ouro e prata das colonias espanholas e açúcar e madeiras de tinturaria das colonias portuguesas.

Ao contrario da VOC, no oriente, que manteve sempre relações comerciais com os governos daquelas praças, a WIC esteve sempre em pé de guerra no Brasil, mesmo com a trégua decretada em 1640 quando da restauração do trono português através de D. João IV, época do governo de Maurício de Nassau no Recife. As despesas com a manutenção de navios, fortificações e tropas na conquista era muito além do que a Companhia podia suportar.      


sábado, 23 de agosto de 2014

Construindo o Brasil

Desde o inicio da colonização do Brasil as principais construções executadas pelos portugueses eram de caráter religioso (capelas, igrejas e conventos) e aquelas que visavam a defesa dos núcleos mercantis e de povoamento, como paliçadas, redutos e fortes.

Antes mesmo da fixação dos lusitanos no território descoberto, a preocupação preliminar era o levantamento e descrição das terras e mares através de desenhos e mapas do litoral e das primeiras povoações. Além dos portugueses, franceses, espanhóis, holandeses e ingleses já haviam visitado e mostrado as costas brasileiras em vários documentos.

A cartografia portuguesa dos séculos XVI e XVII é representada por Luis Teixeira e João Teixeira Albernaz (“O Velho” e “O Novo”) com alguns mapas onde aparecem Olinda, Recife, Cabo de Santo Agostinho e Baia de Todos os Santos. Dentre os engenheiros portugueses são conhecidos: Braz da Mata, de Lisboa, que ergueu a abóbada da Matriz de Olinda, Manuel Gonsalves, que fez o traçado de igrejas e conventos em Recife e Ipojuca, Francisco de Frias da Mesquita, engenheiro-mor do Brasil e responsável pela construção do Forte dos Reis Magos, Natal, e o florentino Baccio da Filicaia, que atuou como engenheiro militar e capitão de artilharia em Salvador.

Ao invadirem o Brasil, os holandeses usaram engenheiros portugueses em suas obras como Cristovão Álvares, responsável por obras no Castelo do Mar em Recife, baluartes na paliçada e torre da Matriz em Olinda e no Castelo Keulen (Reis Magos) em Natal.

Após a expulsão dos holandeses em 1654, a maioria dos prédios levantados pelos invasores foi destruído ou descaracterizado para que não houvesse lembrança da passagem dos neerlandeses no Brasil. O Forte de Cinco Pontas, assim conhecido até hoje, foi reformado, e de pentágono passou a quadrilátero. 

terça-feira, 29 de julho de 2014

Carta de Doação de Olinda

Duarte Coelho, Fidalgo da Casa de El-Rei Nosso Senhor, Capitão Governador destas Terras da Nova Lusitânia por El-Rei Nosso Senhor.

No ano de 1537 deu e doou o senhor governador a esta sua Vila de Olinda, para seu serviço e de todo o seu povo, moradores e povoadores, as cousas seguintes: Os assentos deste monte e fraldas dele, para casaria e vivendas dos ditos moradores e povoadores, os quais lhes dá livres de foros o isentas de todo o direito para sempre, a as Varzeas das Vacas e de Beberibe e as que vão pelo caminho que vai para o Paço do governador, e isto para os que que não têm onde pastem os seus gados, e isto será nas campinas para pacigo, e as reboteiras de matos para roças a quem o conselho as arrendar, que estão das campinas para o alagadiço e para os mangues, com que confinam as terras dadas a Rodrigo Álvares e outras pessoas.
...

A ribeira do mar até o arrecife dos navios, com suas praias, até o varadouro da galeota, subindo pelo rio Beberibe arriba, até onde faz um esteiro que está detrás da roça de Brás Pires, conjunta com outra de Rodrigo Álvares, tudo isto será para serviço da Vila e povo dela, até cinquenta braças do largo, do rio para dentro, para desembarcar e embarcar todo o serviço da Vila e povo dela, e daí para riba tudo que puder ser, demais dos mangues, pela várzea e pelo rio arriba é da serventia do Concelho.
...

O Monte de Nossa Senhora do Monte, águas vertentes para toda a parte, tudo será para serviço da Vila e povo dela, tirando aquilo que se achar ser da casa de nossa senhora do monte, que é cem braças da casa ao redor de toda parte, e assim o Valinho que é da banda do nortee rodeia todo o monte pelo pé, até o caminho que vai da dita Vila para o Val de Fontes, para o curral velho das vacas, que tudo é da dita casa de Nossa senhora do Monte.

E porque, por detrás do dito montinho, onde há de fazer o Senhor Governador a sua feitoria, até o varadouro da galeota, há de se abrir o rio Beberibe e lançar ao mar por entre as duas pontas de pedras, como tem assentado o Senhor Governador; entre o dito rio lançado novamente e as roças da banda de riba, de Paio Correia e da Senhora Dona Brites e o mato que está adiante, que ora é do Senhor Jerônimo de Albuquerque, há de ir uma rua de serventia ao longo do dito rio novo para serventia do povo, de que se possa servir de carros, que será de cinco ou seis braças de largo e rodeará pelo pé do montinho até o varadouro da galeota.

Todas as fontes e ribeiras ao redor desta Vila dois tiros de besta são para serviço da dita Vila e povo dela;   falas-a o povo alimpar e correger à sua custa.
...

Isto foi assim dado e assentado pelo dito Governador e mandado a mim Escrivão que disto fizesse assento e foi assinado pelo dito governador a 12 de março de 1537 anos.


Denominado imprecisamente de Foral de Olinda, essa Carta de Doação do donatário Duarte Coelho definiu formalmente a vila de Olinda, citando também o Recife (arrecife dos navios). Em 1550, a Câmara de Olinda solicitou ao donatário uma cópia do documento, pois o original havia sido extraviado. Durante a invasão holandesa e o incêndio da vila em 1631, o documento foi novamente perdido. Após a restauração pernambucana em 1654, foi localizado no Mosteiro de São Bento de Olinda.

domingo, 13 de julho de 2014

O Incêndio de Olinda

Em 15 de fevereiro de  1630, com o desembarque das tropas da Companhia das Índias Ocidentais do coronel Waerdenbuch na praia de Pau Amarelo, um pouco ao norte, rapidamente os invasores seguiram para Olinda, sede da capitania de Pernambuco, encontrando resistência por parte dos luso-brasileiros no Rio Doce.

Dominaram a vila com relativa facilidade pois a maioria dos moradores fugiu levando o que puderam. Alguns bolsões de contenção foram eliminados, destacando-se a brava luta do capitão André Temudo em defesa da Igreja da Misericórdia no Alto da Sé.

Senhores do local e depois do porto, Recife, os comandantes das tropas da WIC, constataram que a geografia de Olinda era formada por elevações autodominantes, ou seja, cada monte era cercado por montes vizinhos, o que obrigava a que todos fossem ocupados para garantir a defesa da vila, acarretando a necessidade de um contingente que poderia ser melhor utilizado para o ataque de outros pontos.

O almirante Lonck, comandante da expedição, escreve ao Conselho dos XIX, diretoria da WIC nos Países Baixos, pedindo permissão para abandonar Olinda, concentrando as tropas no Recife. O pedido é negado pois os Heeren XIX não podiam compreender porque se deveria abandonar a sede da capitania, conhecida como uma das mais ricas vilas das colonias portuguesas. Após várias tentativas de convencer a WIC e o governo neerlandês da necessidade de concentrar esforços no Recife para poder atacar outros locais defendidos pelos luso-brasileiros, o príncipe Frederik Hendrik, autoriza aos seus comandantes que abandonem Olinda.

No dia 17 de novembro de 1631 começa a demolição dos prédios de Olinda e a retirada do material de construção, que era muito escasso, para o Recife. Em 24 de novembro a vila de Olinda é incendiada em vários pontos e quase totalmente arrasada. Segundo Duarte de Albuquerque Coelho, Olinda possuía 2.500 habitantes, quatro conventos, um colégio dos jesuítas e uma Casa de Misericórdia.

Os invasores proibiram que se reconstruísse em Olinda, o que só voltou a acontecer depois da chegada de Maurício de Nassau em 1637. O Recife e a Ilha de Antônio Vaz já estavam demasiadamente ocupadas devido ao intenso crescimento do porto e a construção de prédios para diversas finalidades.